Laboratório IPH/USCS participa de Expedição Tietê com a ONG SOS Mata Atlântica

O levantamento, inédito, mostra os níveis de contaminação por região e revela que não há trecho não contaminado.

*Com informações da ONG SOS Mata Atlântica

Entre os dias 9 e 14 de junho de 2025, uma equipe multidisciplinar da Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com universidades (entre elas, a USCS) e centros de pesquisa realizou a coleta e análise de diversos parâmetros da qualidade da água por toda a extensão do rio que banha 62 municípios ribeirinhos do Estado de São Paulo. Da nascente em Salesópolis à foz no rio Paraná, em Itapura, o levantamento traçou um retrato inédito das condições ambientais do rio Tietê. O Laboratório de Análise Ambiental do Projeto IPH (Índice de Poluentes Hídricos) da USCS participou com análises físico químicas, microbiológicas e parasitológicas, tais como oxigênio dissolvido, PH, sólidos dissolvidos totais, profundidade, fósforo, amônia, nitrito, nitrato, entre outros. Os resultados do estudo foram apresentados no dia 25/6 (quinta-feira) na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

O estudo revelou que ao longo do rio Tietê não há nenhum trecho plenamente livre de contaminação. Ao longo de mais de 1.100 quilômetros foram encontrados microplásticos em todos os 14 pontos analisados, além de 25 tipos de agrotóxicos e 16 substâncias entre fármacos e drogas ilícitas.

Segundo a ONG, a principal conclusão é que o Tietê apresenta múltiplas camadas simultâneas de contaminação: microbiológica, química, farmacológica, plástica, agrícola e orgânica. Essas pressões variam ao longo do percurso e refletem diretamente a urbanização, o saneamento insuficiente, o uso agrícola do solo, a presença de reservatórios e as mudanças na ocupação da bacia.

Para Gustavo Veronesi, coordenador da causa Água Limpa da Fundação SOS Mata Atlântica, os dados exigem uma leitura integrada da bacia. “O rio reflete as marcas do esgoto, dos padrões de consumo cotidiano, dos resíduos plásticos, das atividades agrícolas e do uso e ocupação do solo na bacia hidrográfica. Quando encontramos microplásticos em todos os pontos, agrotóxicos ao longo do percurso e substâncias como fármacos e drogas ilícitas na água, não estamos olhando para problemas separados, mas de um conjunto de pressões que atuam de forma simultânea e cumulativa. Por isso, a recuperação do Tietê exige uma abordagem integrada, que combine ampliação do saneamento, fiscalização efetiva, planejamento territorial e monitoramento contínuo da qualidade ambiental, envolvendo Estado, municípios, comitês de bacias hidrográficas, indústrias, comércio, agricultores e população”, diz.

O coordenador ressalta também que os impactos não atuam de forma isolada. “Microplásticos podem transportar agrotóxicos e fármacos, o excesso de matéria orgânica favorece a proliferação de microrganismos e, consequentemente, reduz a oxigenação da água,  dificultando a decomposição natural de parte dos poluentes”, completa.

Microplásticos, remédios e agrotóxicos da nascente à foz

Os microplásticos, presentes em todos os pontos, variaram de 330 a 23.587 partículas por metro cúbico, enquanto a predominância de fibras aponta para fontes como efluentes domésticos e industriais, drenagem urbana, lavagem de roupas sintéticas e descarte inadequado de resíduos. As maiores concentrações foram registradas em trechos urbanos, como Osasco, e em reservatórios do interior, como Promissão, onde se registrou o pico, já que as barragens funcionam como zonas de retenção e chegam a acumular de 10 a 17 vezes mais partículas do que os trechos de correnteza. Na comparação internacional, os níveis observados no Tietê ficam abaixo dos de alguns rios asiáticos e acima dos de regiões europeias, o que leva os pesquisadores a classificarem o sistema como de impacto moderado a forte.

As 16 substâncias identificadas entre fármacos e drogas ilícitas – incluindo cocaína e seu metabólito, a benzoilecgonina, além de carbamazepina, diclofenaco e losartana – funcionam como sinais químicos da presença humana no rio. A cafeína, detectada em todos os pontos, consolida-se como marcador da poluição por esgoto doméstico. O conjunto revela hábitos de consumo, uso de medicamentos, circulação de substâncias ilícitas e a insuficiência do tratamento de esgoto para impedir que esses resíduos cheguem aos corpos d’água.

Já os 25 tipos de agrotóxicos, de um total de 46 compostos investigados, mostram que a poluição do Tietê não se restringe às áreas urbanas. Nos trechos do Médio e Baixo Tietê, os resultados indicam maior influência agrícola, associada ao cultivo de cana-de-açúcar, soja e citros. Chama atenção a presença de atrazina, herbicida proibido na União Europeia desde 2004 e ainda amplamente usado no Brasil, detectado no Tietê acima dos limites legais em alguns trechos. O achado reforça a importância de ampliar o monitoramento de substâncias usadas na atividade agrícola e seus impactos sobre os recursos hídricos.

As análises físico-químicas, realizadas pelo Projeto IPH, da USCS, também apontaram metais acima dos limites legais. O cobre foi detectado em concentrações além do permitido em todos os pontos analisados (associado a fungicidas agrícolas, descargas industriais e corrosão de tubulações), enquanto o alumínio excedeu o limite em vários trechos. Em excesso, esses metais podem ser tóxicos para a vida aquática e reforçam a necessidade de monitoramento contínuo da qualidade da água. “É importante entender que este processo de contaminação é cíclico. Nele, os dejetos de pessoas do entorno que estão doentes vão para os rios, que adoecem e levam essa contaminação de volta à população, sem contar a presença de medicamentos e substâncias que prejudicam ainda mais essas pessoas, animais e o meio ambiente”, explica a biomédica e pesquisadora do Projeto IPH da USCS, Renata Borges Franchi.

Os parâmetros de carbono, nitrogênio e oxigênio dissolvido, por sua vez, ajudam a explicar o funcionamento ambiental do rio. Quando há muita matéria orgânica e nutrientes na água, a atividade de bactérias decompositoras aumenta e consome oxigênio, piorando as condições para a vida aquática. As menores concentrações de oxigênio dissolvido foram registradas em Guarulhos e Osasco, com 0,37 mg/L e 0,49 mg/L. Na nascente, em Salesópolis, o valor foi de 6 mg/L; na foz, em Itapura, chegou a 8,6 mg/L – uma recuperação parcial da oxigenação no trecho final, que não elimina a presença de contaminantes químicos, farmacológicos, plásticos, metálicos e agrícolas.

Um diagnóstico bioquímico da sociedade paulista

Os contaminantes encontrados refletem hábitos e padrões de consumo da população, funcionando como um verdadeiro “diagnóstico bioquímico coletivo” da sociedade paulista. Os dados microbiológicos indicam presença de bactérias fecais, patógenos, parasitas e organismos associados a doenças gastrointestinais. Já nas amostras coletadas na nascente, alguns indicadores ficaram acima dos limites legais para rios de melhor qualidade, chegando, em determinados casos, a até 40 vezes o permitido. Somada à detecção de fármacos e drogas ilícitas, essa condição faz do rio um indicador indireto das condições sanitárias e do modelo de ocupação dos territórios que atravessa.

“O Tietê não pode ser entendido apenas a partir daquilo que é visível, como cor, odor, espuma ou lixo. A expedição mostra uma camada menos evidente da poluição, formada por contaminantes que expõem as condições sanitárias, os hábitos de consumo e a forma como ocupamos a bacia. Esses dados são essenciais para orientar políticas públicas e cobrar ações concretas de recuperação do rio”, afirma Malu Ribeiro, diretora de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica.

Para Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da organização, o diagnóstico aponta para o caminho da solução. “A poluição do Tietê não nasce de uma única fonte e não será resolvida por uma única medida. Recuperar o rio exige saneamento, fiscalização, planejamento territorial, mudanças nas práticas agropecuárias, recuperação florestal e monitoramento contínuo, avançando de forma articulada ao longo de toda a bacia e no longo prazo.”

A Expedição Tietê

A Expedição Tietê 2025 marca uma nova frente técnico-científica da Fundação SOS Mata Atlântica – vinculada à causa Água Limpa e ao programa Observando os Rios, que monitora a qualidade da água do Tietê desde 1993. Foi desenvolvida em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Federal do ABC (UFABC), Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP (CENA/USP) e Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), com participação de especialistas do Instituto do Mar da Unifesp, da Unifesp Baixada Santista, do Laboratório de Ecotoxicologia do CENA/USP e do Projeto Índice de Poluentes Hídricos da USCS.

A Expedição Tietê 2025 amplia o alcance do monitoramento histórico realizado pela SOS Mata Atlântica e coloca o Tietê no centro de debates nacionais e internacionais sobre qualidade da água. Ao reunir, em um mesmo percurso, análises microbiológicas, parasitológicas, físico-químicas, biogeoquímicas, de microplásticos, agrotóxicos, fármacos e drogas ilícitas, a iniciativa permite observar como diferentes pressões ambientais se combinam em uma grande bacia hidrográfica.

Até onde se tem conhecimento, trata-se de uma das primeiras iniciativas no Brasil a percorrer integralmente um rio dessa escala com uma abordagem multidisciplinar tão ampla, conectando contaminantes clássicos, como esgoto e metais, a temas emergentes da agenda global, como microplásticos, resíduos farmacológicos, drogas ilícitas, agrotóxicos e mudanças no uso do solo.

Sobre a Fundação SOS Mata Atlântica A Fundação SOS Mata Atlântica é uma organização da sociedade civil brasileira sem fins lucrativos. Fundada em 1986, tem como missão inspirar a sociedade na defesa do bioma mais devastado do país. Atua para promover políticas públicas para conservar e restaurar a Mata Atlântica, trabalhando de maneira integrada as temáticas de água, biodiversidade e clima. Monitora a situação das florestas e ecossistemas associados, além de trabalhar para recuperar áreas já degradadas. Também defende e cria políticas públicas em prol do bioma. Essa causa beneficia diretamente mais de 70% da população brasileira, que vive na Mata Atlântica e depende dela para ter qualidade de vida.

Sobre o Projeto IPH USCS O projeto Índice de Poluentes Hídricos da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (IPH/USCS), tem entre seus objetivos contribuir com informações pertinentes tanto à qualidade das águas dos reservatórios da região metropolitana de São Paulo, quanto ao meio ambiente, sob coordenação da docente e bióloga, Profª. Marta Angela Marcondes. Suas discussões, junto a dirigentes dos sete municípios do Grande ABC e de São Paulo, além da participação da sociedade civil, contribuíram para a elaboração da Lei Especifica da Billings, promulgada em 2009. De lá para cá, processos foram (e continuam) sendo aprimorados, equipamentos de última geração passaram a fazer parte dos estudos, permitindo resultados cada vez mais detalhados que contribuem com informações para toda a sociedade. “Nos resultados dos nossos estudos, disponibilizamos os relatórios tanto para a sociedade civil como para o poder público, muitos deles já nortearam projetos e políticas públicas relacionados ao saneamento“, explica a docente.

Fotos: Léo Barrilari (SOSMA).