O mês de setembro marca a importância da conscientização sobre as doenças cardiovasculares, o setembro vermelho. Para trazer informações e esclarecer as principais dúvidas sobre o tema, contamos com a contribuição do cirurgião cardiovascular e docente do curso de Medicina da USCS, professor Eduardo G. Chamlian, que respondeu a essas questões. Veja a seguir:
Existe idade ou gênero com maior probabilidade de ter uma doença cardiovascular?
Eduardo Chamlian: Os homens têm um fator de risco maior para ter doença coronária do que as mulheres. Sobre as mulheres, o que sabemos é que as mulheres no período pré-menopausa, as manifestações de doença coronária são mais raras, aumentando abruptamente essa incidência depois da menopausa (por conta da baixa do estrogênio, hormônio que protege as artérias, melhora o perfil do colesterol e dá flexibilidade aos vasos sanguíneos), chegando, algumas vezes, até a três vezes mais probabilidade de ter doença arterial coronária e um consequente infarto.
Em relação à idade, à medida em que os anos passam, aumentam as chances da ocorrência de infarto do miocárdio. Entre 40 e 50 anos, a chance de ter uma doença coronária é de aproximadamente 2%, já aos 80 anos essa chance vai pra 22%, então quanto mais avançada a idade, maior o risco.
A dieta é um fator que influencia no risco?
A dieta é um fator de risco bem estabelecido. Entre os fatores nutricionais que podem contribuir no aumento da chance de infarto estão alimentos com alto índice glicêmico que, quando ingeridos promovem uma grande liberação de insulina pelo pâncreas; o consumo de refrigerantes ou sucos adoçados artificiais; o baixo consumo frutas e vegetais, o alto consumo de carne vermelha e de gorduras de ácidos graxos/trans (margarina, por exemplo), e o baixo consumo de alimentos ricos em fibras, pois a pouca ingestão de fibras contribui pra maior incidência da doença coronária.
O que o sr. sugeriria para prevenção de problemas cardíacos?
A Sociedade Americana de Cardiologia American Heart Asssociation chama de “Life’s Essential 8“, ou seja, os oito fatores essenciais pra diminuir o risco e ter saúde cardiovascular adequada. São eles: não fumar;, ser fisicamente ativo(a); ter a pressão arterial normal/controlada; ter o nível de açúcar sangue normal; ter o nível de colesterol normal; estar no peso adequado, ingerir uma dieta saudável, e ter um padrão de sono adequado. Esses hábitos controbuem para a prevenção das doenças cardiovasculares.
Quais os sintomas que sugerem o aparecimento das doenças cardiovasculares?
Na avaliação com um paciente, analisamos seu histórico clínico, anamnese, se a família já teve alguma doença cardiovascular, sua idade, diabetes, colesterol, hipertensão, se fuma ou faz uso de outras drogas. Geralmente esses pacientes se apresentam com dor torácica, típica ou atípica, que pode irradia para o braço esquerdo, pode fica situada entre a mandíbula e o estômago, pode ir para o dorso (costas), sintoma que geralmente chama a atenção do médico e faz com que ele peça um eletrocardiograma de imediato. Outros sintomas como falta de ar, cansaço, muitas vezes náusea, sintomas de indigestão com vômitos, sudorese difusa, tontura, cansaço… todos fazem parte desse quadro geral, e variam de paciente para paciente. Essa associação de o paciente ter os fatores risco, mais o tipo de dor, faz com que o médico tome as medidas iniciais para fazer o diagnóstico.
A recomendação dos especialistas é que tanto homens quanto mulheres comecem a monitorar a saúde do coração desde o início da vida adulta e a consultem o médico regularmente.
Predominância do risco por gênero
Tendo em vista a incidência de os homens desenvolverem doença arterial coronariana (DAC) 10 anos antes das mulheres, um estudo publicado no início de 2026 no Journal of the American Heart Association buscou descobrir se o fator gênero também se aplica nos casos de outros tipos de doença cardiovascular, como insuficiência cardíaca e AVC. A doença cardíaca coronariana é caracterizada por um estreitamento ou obstrução das artérias do coração causado pelo acúmulo de placas.
O estudo “Diferenças entre os sexos na idade de início da doença cardiovascular prematura e seus subtipos: Estudo CARDIA – Desenvolvimento de Risco de Doença Arterial Coronariana em Adultos Jovens” (Sex Differences in Age of Onset of Premature Cardiovascular Disease and Subtypes: The Coronary Artery Risk Development in Young Adults Study), contou com mais de 5 mil participantes de quatro estados dos Estados Unidos, com idades entre 18 e 30, incluídos entre 1985 e 1986 e acompanhados até agosto de 2020. O estudo teve início antes mesmo de surgirem os riscos cardiovasculares em parte deste público, o que os autores consideram uma vantagem, pois foi possível medir com precisão quando a doença surgiu.
O grupo examinou a doença cardiovascular precoce, definida como a doença que ocorre antes dos 65 anos, e analisou tanto a doença cardiovascular geral quanto subtipos específicos: doença cardíaca coronariana, AVC e insuficiência cardíaca.
Homens e mulheres, até os 30 anos apresentavam riscos cardiovasculares de curto prazo semelhantes. Por volta dos 35 anos, começaram a surgir divergências entre os gêneros. Ao longo dos anos, foi verificado que os riscos para tais doenças mostraram-se nos homens de 7 a 10 anos antes do que nas mulheres.
Em relação aos riscos de AVC, não foram encontradas diferenças significativas de variação de idade entre homens e mulheres. No caso de insuficiência cardíaca, houve diferença significativa (taxa de incidência maior em homens) a partir dos 65 anos.
Conforme os achados do estudo, a idade prevalecente para os riscos cardiovasculares passou de 40 para 30 anos. Nesta faixa etária, os resultados também levantam questões sobre a busca e monitoramento dos serviços de saúde, maior entre as mulheres, principalmente pelo cuidado com a saúde reprodutiva.